quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A DICOTOMIA ENTRE CORPO E ALMA

Um dos conflitos mais antigos da humanidade está relacionado a essa dicotomia entre corpo e alma. Num mundo hedonista que vivemos nos dá impressão que isso não seja pertinente, porque as ações estão muito relacionadas ao prazer material. Mas mesmo assim, o corpo perfeito é uma ideia, a alma, que podemos chamá-la de razão também é idealização. Portanto, ainda não houve uma mudança consistente sobre essa questão.
Quando refletimos sobre corpo e alma é difícil não citar Platão, porque é o filósofo que mais trabalhou essa dicotomia. Para Platão existem dois mundos: o sensível, que é o mundo concreto e imperfeito; o inteligível o mundo das ideias puras e perfeitas. Nessa concepção platônica o homem mesmo possuindo a inteligência porque é racional, não chega perto do mundo das ideias puras, porque a nossa racionalidade está cega diante as vicissitudes do mundo sensível. Em suma, Platão percebe o corpo como prisão da alma. Como um grego do seu tempo, ele defende a harmonia das formas, principalmente do corpo, através de atividades físicas que harmoniza a parte corpórea permitindo uma maior liberdade do espírito, ou seja, da razão.
A concepção platônica caiu como uma luva para o cristianismo medieval, no qual afirmavam que o verdadeiro mundo estava na espiritualidade. O sofrimento deveria de ser aceito com resignação, porque faz parte desse mundo imperfeito pelo pecado dos homens.
No século XVII René Descartes afirma a existência divina através de uma concepção do pensamento, princípio no qual o homem tem consciência da sua existência, também, serve para afirmar que existe um ser racional perfeito e criador, no caso Deus. O corpo visto por Descartes é apenas como uma máquina, que não é nada sem a razão.
Mas na mesma época que viveu Descartes havia um pensador que discordava dessa teoria, chamado Spinoza. Para Spinoza nós somos múltiplos, feitos de várias substâncias, não existe separação entre corpo e alma, são unidos. Nessa lógica o desejo faz parte da nossa essência humana, que vai se interessar por tudo que nos dá alegria, facilitando assim, a nossa capacidade de pensar. Spinoza chama isso de Teoria do Paralelismo, em que não há hierarquia entre corpo e alma, eles são correspondentes. O que passa em um manifesta no outro, do seu modo próprio.
A partir do século XIX percebemos o surgimento da utopia da ciência como solucionadora de todos os problemas, principalmente relacionadas ao corpo. Ai há uma mudança de pensamento, no qual, o corpo passa a ter uma credibilidade. Porém, é visto pela ciência da medicina como algo específico. Isso quer dizer se o corpo padece de saúde, a medicina especializada vai tentar solucionar, como trocar ou concertar uma peça de um carro.
Outros pensadores como Nietzsche e Freud irão desmentir as crenças racionalistas, defendendo que a razão consciente não é o centro das decisões. Nietzsche vai afirmar que todo conhecimento é perspectivismo, numa pluralidade de ângulos. O corpo possui conhecimentos que resulta do movimento, da luta do compromisso entre sentidos. Freud nos trás outro termo a psique que não é apenas a pura razão é também o inconsciente. Essa repercute no corpo através da somatização de possíveis traumas da psique.
Uma das possíveis soluções sobre esse tema talvez esteja na perspectiva transdisciplinar, que envolve o corpo e alma, inseridos num sentido de coletividade, porque não nos definimos por si só, mas através da relação com o meio. Tanto corpo como alma (razão), deve ser vistos como potências que estão associadas a desejos e vontades, que se manifestam nas ações criativas, admitindo a complexidade da vida, que não se restringe a corpo e alma, mas parte de um ecossistema que mostra a sua existência num constante movimento.

Pronto, falei.

Marcelo Leal.

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