Um dos
conflitos mais antigos da humanidade está relacionado a essa dicotomia entre
corpo e alma. Num mundo hedonista que vivemos nos dá impressão que isso não
seja pertinente, porque as ações estão muito relacionadas ao prazer material.
Mas mesmo assim, o corpo perfeito é uma ideia, a alma, que podemos chamá-la de
razão também é idealização. Portanto, ainda não houve uma mudança consistente
sobre essa questão.
Quando
refletimos sobre corpo e alma é difícil não citar Platão, porque é o filósofo
que mais trabalhou essa dicotomia. Para Platão existem dois mundos: o sensível,
que é o mundo concreto e imperfeito; o inteligível o mundo das ideias puras e
perfeitas. Nessa concepção platônica o homem mesmo possuindo a inteligência
porque é racional, não chega perto do mundo das ideias puras, porque a nossa
racionalidade está cega diante as vicissitudes do mundo sensível. Em suma,
Platão percebe o corpo como prisão da alma. Como um grego do seu tempo, ele
defende a harmonia das formas, principalmente do corpo, através de atividades
físicas que harmoniza a parte corpórea permitindo uma maior liberdade do
espírito, ou seja, da razão.
A concepção
platônica caiu como uma luva para o cristianismo medieval, no qual afirmavam
que o verdadeiro mundo estava na espiritualidade. O sofrimento deveria de ser
aceito com resignação, porque faz parte desse mundo imperfeito pelo pecado dos
homens.
No século XVII
René Descartes afirma a existência divina através de uma concepção do
pensamento, princípio no qual o homem tem consciência da sua existência,
também, serve para afirmar que existe um ser racional perfeito e criador, no
caso Deus. O corpo visto por Descartes é apenas como uma máquina, que não é
nada sem a razão.
Mas na mesma
época que viveu Descartes havia um pensador que discordava dessa teoria,
chamado Spinoza. Para Spinoza nós somos múltiplos, feitos de várias
substâncias, não existe separação entre corpo e alma, são unidos. Nessa lógica
o desejo faz parte da nossa essência humana, que vai se interessar por tudo que
nos dá alegria, facilitando assim, a nossa capacidade de pensar. Spinoza chama
isso de Teoria do Paralelismo, em que não há hierarquia entre corpo e alma,
eles são correspondentes. O que passa em um manifesta no outro, do seu modo
próprio.
A partir do
século XIX percebemos o surgimento da utopia da ciência como solucionadora de
todos os problemas, principalmente relacionadas ao corpo. Ai há uma mudança de
pensamento, no qual, o corpo passa a ter uma credibilidade. Porém, é visto pela
ciência da medicina como algo específico. Isso quer dizer se o corpo padece de
saúde, a medicina especializada vai tentar solucionar, como trocar ou concertar
uma peça de um carro.
Outros
pensadores como Nietzsche e Freud irão desmentir as crenças racionalistas,
defendendo que a razão consciente não é o centro das decisões. Nietzsche vai
afirmar que todo conhecimento é perspectivismo, numa pluralidade de ângulos. O
corpo possui conhecimentos que resulta do movimento, da luta do compromisso
entre sentidos. Freud nos trás outro termo a psique que não é apenas a pura
razão é também o inconsciente. Essa repercute no corpo através da somatização
de possíveis traumas da psique.
Uma das
possíveis soluções sobre esse tema talvez esteja na perspectiva
transdisciplinar, que envolve o corpo e alma, inseridos num sentido de
coletividade, porque não nos definimos por si só, mas através da relação com o
meio. Tanto corpo como alma (razão), deve ser vistos como potências que estão
associadas a desejos e vontades, que se manifestam nas ações criativas,
admitindo a complexidade da vida, que não se restringe a corpo e alma, mas
parte de um ecossistema que mostra a sua existência num constante movimento.
Pronto, falei.
Marcelo Leal.
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